É, eu sei, faz um tempinho que não posto, mas tentarei fazer esta nota valer a pena. Desde a última nota longa (
https://iris.to/note1ssy6uw8c9xtlkas4lp963gqhfmuz94rjgh4crqaz70vkpdal3afs7xd7yd ), onde comento de forma simples sobre o fim do sideload no sistema Android e todo o histórico do Google adicionando mais controle à plataforma, comecei a rever algumas decisões que tomei em relação a alguns dispositivos meus.
Antes de darmos continuidade, preciso contextualizá-los sobre a minha história com esse sistema operacional.
Tudo começa por volta de 2010~2011, quando eu tinha uns 12~13 anos. Nessa época, eu já possuía há algum tempo aparelhos celulares com Java ME. Eu sempre tentava modificar aqueles aparelhos até onde era possível. Navegando pela internet nessa época, comecei a achar conteúdos sobre um novo sistema mobile que já fazia sucesso lá fora, mas que ainda era meio tímido no Brasil: o Android. Quando descobri aquele sistema e o quão customizável ele era, lembro de ter ficado muito eufórico, tanto que tentei pesquisar algum jeito de colocá-lo no meu pobre celular da Samsung. Deveras, essa foi uma grande desilusão que tive: simplesmente não era possível fazer o meu pobre Samsung rodar Android.
A criança, após a desilusão, foi ver se havia algum aparelho em que poderia rodar o Android e então viu aquele belo dispositivo chamado Samsung Galaxy 5. Conseguindo uns cascalhos ao fazer alguns favores e juntando com o dinheiro que havia recebido no Natal, enchi o saco dos meus pais para me levarem à Santa Efigênia, onde poderia conseguir o aparelho (já que não era vendido na minha cidade). Ao comprar o aparelho, lembro que foi extremamente mágico, pena que durou apenas um fim de semana.
Vocês me perguntam: "Mas o que aconteceu para que, em apenas dois dias (sábado e domingo), o aparelho fosse de vivo para morto?". Então... Lembram que eu disse que amava customizar meus dispositivos? O que aconteceu com aquele Galaxy 5 foi uma speedrun de más decisões, mas de muito aprendizado. Eu rapidamente descobri que, para algumas customizações mais pesadas, precisava de uma coisa que na época eu nem entendia o que era: o tal do root. E, para ter esse root, precisaria instalar pelo ClockworkMod (um custom recovery que nos dias de hoje seria o TWRP). Durante a instalação, por um descuido enquanto minha mãe me chamava, apertei o botão de instalar sem ter desmarcado as devidas opções... Rapidinho descobri o que era um hardbrick.
Fiquei sem celular durante um bom tempo, até conseguir colocar as mãos em um Galaxy Y. Aquele celular era ruim, mas tinha Android, então estava valendo. Se vocês pensaram que aprendi com os meus erros e nunca mais iria tão longe novamente... bem, se fosse assim, este post nem existiria! Além de root, dezenas de custom ROMs passaram por aquele celular, além de uma dezena de modificações para poder usar o cartão SD como memória interna para instalar mais coisas, swap e até overclock.
Aquele celularzinho durou. Ele só foi descontinuado pois ganhei do meu pai um antigo iPhone 3G (aquele iPhone viu coisas... até um Android muito travado em dualboot; para quem nunca viu, é isso aqui:
https://www.youtube.com/watch?v=uJj0kHQgC9w ).
Os anos foram passando e outros celulares apareceram. Um que vale a menção era um Galaxy S2 velhinho que consegui; nele, foi a primeira vez que rodei a lendária CyanogenMod oficial (já que, em todos os celulares que tive anteriormente, nunca consegui rodar essa ROM oficialmente).
Mais anos se passaram. Eu tinha parado um pouco por causa da faculdade e do emprego; fazer essas modificações pesadas se tornou menos comum no meu uso. O hardware melhor dos aparelhos e o Google brigando com as fabricantes para manter um Android sem tanto bloatware e atualizado também foram fatores que me fizeram perder a vontade de modificar os aparelhos. Mas aí peguei um Moto X3, e esse Moto X3 vinha com um problema de superaquecimento. Decidi fazer root nele para tentar mantê-lo mais frio, e foi ali que descobri o SafetyNet Attestation, que não me permitia usar contas bancárias se eu tivesse root no sistema. A partir dali, eu simplesmente parei de modificar meus dispositivos.
E então surge o personagem principal (por assim dizer) do artigo: um Galaxy Tab S8. Comprei-o perto da data de sua descontinuação, lá por 2023. Na época, comprei para fazer anotações, assistir a filmes e usar como segunda tela. Ele me serviu bem por todos esses anos, mas, conforme as atualizações da Samsung foram vindo, ele ficou mais "pesado". Eu nunca tinha querido fazer root nele porque, com o Play Integrity, ele ficaria bem capado.
Mas aí eu fiz. No meio do ano passado, desbloqueei o bootloader, baixei a stock ROM dele, instalei no dispositivo (para não ficar instável) e fiz todo o processo de patch pelo Magisk para ter o root. E, sinceramente, que bom que fiz isso! Não muito tempo depois, um amigo meu fez o mesmo no Tab S8 dele e depois atualizou o tablet... Descobrindo a nova piada sem graça da remoção do desbloqueio de bootloader.
Dando todo esse contexto: após escrever aquele artigo, parei para repensar sobre o que fazer com o aparelho. Eu já não usava o Galaxy Tab S8 para coisas que requeressem a Play Store ou o Google Play Services. Aliás, aquele tablet nem estava logado na conta do Google, eu já estava usando a Aurora Store e o F-Droid como fontes de aplicativos. Então, mantê-lo daquele jeito, com o sistema ficando cada dia mais desatualizado e com aquele monte de apps que já vêm no tablet (que não uso e só ficam coletando minhas informações), decidi finalmente que iria trocar o sistema dele.
A primeira coisa que fiz foi ver se já haviam feito drivers de código aberto para o meu dispositivo e, infelizmente, veio o primeiro baque: ainda não existem esses drivers e não é possível ter um kernel estável. Fui ver se tinha ports não oficiais do LineageOS e também não tinha. Procurei no XDA para ver se alguém tinha tido sucesso usando o kernel da própria Samsung para modificar uma Lineage para ele; achei poucos projetos, todos em estágio inicial ou sem muitas informações.
Alguns desistiriam aqui e aceitariam: ou aceito morrer na versão anterior ao fechamento do bootloader para ter o mínimo de liberdade, ou atualizo e vivo no máximo com um Shizuku. Ao pesquisar mais a fundo, descobri que existia uma forma, e era graças ao Google. Sim, ao Google! É muito estranho falar que consegui formatar meu tablet, colocar o Lineage e agradecer ao Google kkkkk. Mas é isso: o Google, ali por volta do Android 8/9, criou o Project Treble, que separava os firmwares proprietários das fabricantes do resto do sistema. Essa separação dos "drivers" e do sistema em si tinha o intuito de deixar mais simples para as fabricantes desenvolverem atualizações para seus dispositivos.
Com a partição vendor (onde ficam os "drivers") e a system separadas, algumas pessoas começaram a montar Androids genéricos, conhecidos pela sigla GSI (Generic System Image). Esses Androids não são perfeitos e podem não se adequar 100% ao seu hardware, mas podem ser instalados na maioria dos dispositivos que possuem Android 8 ou superior.
Tirando toda a briga que tive para instalá-lo no meu Galaxy Tab S8 (se quiserem, posso trazer um post com a história e o tutorial sobre isso), o LineageOS rodando via GSI está funcionando quase perfeito no meu tablet. Isso não seria possível atualmente se a comunidade não fizesse versões GSI do Lineage. Se você não gosta do Lineage, há várias outras ROMs com suporte a GSI (até mesmo compilações AOSP das versões mais recentes do Android possuem versão GSI).
Com as crescentes investidas do Google em fechar cada vez mais o Android, e também pela quantidade de dispositivos bons que viram lixo eletrônico apenas por não receberem mais atualizações, projetos de sistemas alternativos se tornam cada vez mais importantes e merecem todo o nosso apoio. Caso contrário, nos tornaremos cada vez mais reféns.