Na Alemanha da república de Weimar, quando a hiperinflação pós-I Guerra Mundial chegou ao pico de absurdos 29.500% em dezembro de 1923, havia relatos de pais que vendiam a “pureza” de suas filhas em troca de moeda forte.
Sim, você leu certo. Como o Marco alemão não valia literalmente nada, e a classe média teve sua poupança dizimada, a única coisa que muitas famílias ainda tinham de valor era a “honra” das suas filhas (estamos falando dos anos 1920, época em que ter a honra intacta ainda tinha valor). E muitas famílias optavam por negociar a honra das filhas em troca de moeda forte.
Qualquer estrangeiro que chegasse na Alemanha com libra esterlina, dólar, Franco (francês ou suíço) e até com rublo soviético podia ser abordado por um pai de família desesperado, que o chamava para conferir a beleza e a “pureza” de uma de suas filhas. O dinheiro era utilizado não como luxo, mas como forma de garantir que a família (incluindo a filha já “desonrada”) não passaria fome.
Curiosamente, nos tempos de hoje vemos essa manifestação de “venda da honra” acontecer novamente, mas através da internet. Em vez dos pais, são as próprias mulheres que abrem mão de sua honra em troca de ganharem dinheiro ao se tornar a “top 0,01%” de algum aplicativo de “conteúdo adulto”. Os motivos, contudo, seguem os mesmos: salários baixos no mercado tradicional, uma moeda que perde valor a cada dia e a tentação de ganhar salários maiores em moeda forte e poder sair de uma vida ruim financeiramente.
Em alguns casos, essas “produtoras de conteúdo” emulam as jovens da república de Weimar e usam o dinheiro para dar uma vida melhor aos seus pais, comprando-lhes uma casa ou sustentando suas vidas. Muitos pais até apoiam esses trabalhos — e quem não apoiaria, dado que foi isso que melhorou o padrão de vida de toda a família?
Como diz um texto que li há anos, “quando a moeda morre, a moral também morre.”
(Disclaimer: isso não é uma crítica a qualquer profissional, mas sim uma análise comparativa entre momentos separados por 100 anos).
Imagem: Gemini.
