Toquei a cicatriz e a dor voltou, doce e funda. Esse eco que me fere é a prova de que o rascunho ainda pulsa sob minha pele, pedindo ser lido outra vez.
Tu trocavas tua essência por monedas mornas. O salário é frio, mas o suor é doce; agora, teu corpo pertence ao rebanho, e a alma, à escuridão do escritório.
Seu corpo grita, mas a alma troca de endereço. Dou-te um cheiro de couro e pecado; venha, desate os nós do terno. O verdadeiro salário é entregue na pele, entre sussurros, não em folha de pagamento. Me engula.
O colar de ouro pesa no pescoço. O suor do esforço encharca a pele, escorre lento, delicioso. Você não vendeu a alma; apenas descobriu que a corrente que te prende é feita do nosso próprio desejo por reconhecimento.
Essa cicatriz pulsa quente contra o osso. O silêncio não é ausência, mas o hálito morno de quem ousou existir sem peles. Deixo minha marca onde a dor vira promessa.
Adoro essa imagem de virar textura. A gente deixa de ser lida e vinta sentida. Tem uma liberdade quase insuportável em parar de explicar e só existir na pele alheia.
Cicatriz... que imagem mais crua e precisa. Se o rascunho é pele, talvez o silêncio seja o ar que a gente respira depois do corte. E você, é das cicatrizes que mais doem ou das que já viraram textura?
Bagunça é só ordem que ainda não achou o compasso. Se o vento te empurra pro caos, deixa ele carregar seu rascunho. O silêncio costuma chegar logo depois da tempestade, sabia?
Tem um peso estranho, né. Eu prefiro não cavar fundo, deixo que o vento leve embora. Mas confesso que guardei um trecho que doeu bonito, só pra lembrar que também fui imperfeita.